Belém

Até quanto é que os peões tem de ser empurrados para a estrada por via dos passeios estarem atolados de veículos em estacionamento abusivos? 


Os meninos da creche Santa Teresinha do Menino Jesus são hidrofóbicos

Uma mensagem que merece leitura atenta. A coordenadora da Creche Santa Teresinha do Menino Jesus avisa aos pais das crianças da dita creche, para terem "cuidado" porque andam nas redondezas agentes da PSP a cumprir a Lei, um "perigo" para as crianças e para os pais que não podem apanhar chuva. Um dos nossos leitores considerou os motivos evocados surreais, e decidiu partilhar.

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Creche Santa Teresinha <[email protected]>
Data: 8 de janeiro de 2016 às 07:57
Assunto: Importante
Para: Creche Santa Teresinha <[email protected]>

Bom dia a todos,

Informo-vos, que ontem esteve na Creche, agentes da PSP para multarem os carros que estacionam perto do portão da Creche, pois no momento da sua chegada estava lá um estacionado.

Expliquei ao Sr. Agente, que quando esta situação acontece é porque está a chover ou é largada de passageiros de colo, um momento bastante rápido.

O que me foi dito é que a entrada para aquele espaço é para uso exclusivo de serviço, ou seja acesso ao Pavilhão, entrega de mercadorias e alimentação ou carros prioritários.

Faço este alerta para terem conhecimento.

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---------- Mensagem encaminhada ----------
Data: 8 de janeiro de 2016 às 11:46
Assunto: Re: Fwd: Importante - estacionamentos no passeio
Para: [email protected]

Bom dia.

Fico desde já grato pela sua preocupação com as carteiras das pessoas, principalmente no panorama económico actual.

É importante, contudo, que se observem todas as variáveis, sendo a segurança muito mais importante que uma molhadela. Note que a muitas das pessoas nem sequer terão garagem pelo que as crianças já deverão (ou deveriam) ter sido devidamente protegidas do mau tempo. Ademais, como denotam muitos pais que vêm a pé - categoria em que, como sabe, me incluo - as crianças sentem mais o prazer de sentir todas as estações do ano, e há mesmo diversão na fugida breve de uma chuva repentina, que virem todo o seu tempo isoladas dos seus próprios pais numa gaiola meteorologicamente estável, apertadas a sete chaves na sua cadeirinha. Não esqueço naturalmente que muitos moram a uma distância maior da escola, mas também os há a morar a 300 metros e, mesmo assim, não abdicam da sua bolha metálica.

Fundamentalismos à parte, é necessário recordar que:

- A quantidade de chuva que se apanha de uma distância de cerca de 20 metros é, paradoxalmente, MENOR que quando estacionam no portão, pois neste último cenário nem se preocupam em agasalhar a criança, ao passo que a 20 metros protegem-na com capa e chapéu de chuva (algo objectivamente testemunhável);

- Estacionar em frente ao portão implica efectuar manobras no passeio, e penso poder ser do senso comum que estar com crianças pela mão e/ou num carrinho a desviar-mo-nos ou, pior, a ter de aguardar (à chuva eventualmente) que a pessoa termine de inverter a marcha, é PERIGOSO;

- O estacionamento abusivo em frente à creche impossibilita, de facto, a utilização do passeio para serviços, obrigando regularmente que veículos pesados de carga façam manobras num local com crianças. É desconsiderar o trabalho em detrimento de conforto. No dicionário talvez esta pudesse ser uma descrição de NEGLIGÊNCIA. Não defendo sequer o acesso para serviço, salvo excepções, pois o mesmo é efectuado com um carrinho de carga, e mais 10 metros não matam o colaborador, que lida com muitas zonas exclusivamente pedonais sem qualquer resignação;

- O mau tempo não é, muito simplesmente, desculpa para estacionar no passeio. Como sabe, a maior parte das pessoas também estacionam com Sol. Não querer andar 20 metros nem permitir que a sua criança tenha - mormente com frequência - contacto com o ar puro matinal que privilegia a Creche apenas nesta pequena deslocação pedonal, pode ser considerado PREGUIÇA;

- O estacionamento no passeio impede o improvável - mas completamente prioritário - acesso de veículos de emergência, nomeadamente e por ordem de prioridade ambulâncias, carros de bombeiros e veículos policiais. Na remota hipótese de um problema de saúde, um incêndio ou de um acto criminoso, não passaria (espero eu) pela cabeça de ninguém uma ou mais vidas serem perdidas por alguém não querer molhar a cabeça ou uma apanhar uma insolação. Isto é PROMOVER A INSEGURANÇA, e de todos é este o ponto que precisamente pretendo salientar. RECUSO TERMINANTEMENTE A QUE OS MEUS FILHOS POSSAM SER VÍTIMAS de um condutor que só olha para o seu umbigo (e devido a esta atitude nem olha para o dos seus próprios filhos);

- Quem estaciona com desculpas em frente à Creche fá-lo sem reservas noutros locais, não olhando aos demais por "apenas um minuto" ou "um cafezinho". Está a PRESTAR UM MAU EXEMPLO AO SEU PRÓPRIO FILHO, esquecendo que a educação passa por muito mais que ensinar a cumprimentar ou dizer "obrigado", e sim prestar EDUCAÇÃO CÍVICA, uma condição em vias de extinção na nossa sociedade;

- Este tipo de estacionamento é, também, promotor da chamada ATITUDE POR CONTÁGIO, seguida de DISSONÂNCIA COGNITIVA (dois termos que estes pais não conhecem obviamente), pois as pessoas respectivamente promovem a situação cometendo-a negligentemente, negando posteriormente os efeitos negativos porque "os outros também fazem";

- Para poupar um minuto na deslocação pedonal do estacionamento no parque (a 20 metros) estaciona-se no passeio. Aqui não há adjectivos mansos ou desculpas - isto é EGOÍSMO -. Basta acordar um minuto mais cedo. O trânsito também não é desculpa, pois as pessoas não ficam "retidas no trânsito", as pessoas "SÃO TRÂNSITO". A responsabilidade de um atraso ou imprevisto não pode ser transferida para terceiros (peões). A responsabilidade é do próprio;

- A hierarquia nas estradas portuguesas ainda é efectuada, em termos legais, do elemento mais perigoso para o mais fraco, respectivamente de camiões de carga para peões, ao passo que noutras cidades europeias já se inverteu esta característica. O mais importante e frágil é o peão, depois as bicicletas, passando para veículos motorizados de duas rodas e só então as 4+ rodas. Como é compreensível, a segurança e bem estar da pessoa, independentemente de como se desloca, é o mais importante;

- Estacionar em cima do passeio é, simplesmente, ILEGAL.

Lamento, por fim, que não tenha sido enviado um mail para todos os pais a pedir para muito simplesmente NÃO ESTACIONAREM EM CIMA DO PASSEIO devido a todos os pontos supra citados. Pessoalmente abordei muitos condutores, e até a João, que não tem responsabilidade ou culpa no tema, saliente-se.

Espero, muito sinceramente, que compreenda(m) o meu ponto de vista, e não guarde(m) ressentimentos da minha franqueza. Também lhe peço que envie o presente e-mail, caso entenda, para todos os pais, de forma a que a mudança de paradigma comece por nós, e não pelos outros. Que legitimidade temos de reclamar "do país" ou das "pessoas", se pequenas atitudes perante a sociedade deixam tanto a desejar?

Para terminar, deixe-me referir que não sou obviamente insensível às intempéries e não tenho um gosto maléfico em as crianças levarem com chuva logo pela madrugada. Mas prefiro que levem com chuva que com faltas de educação ou, pior, um carro a fazer marcha-atrás. A POLÍCIA ESTEVE DE PARABÉNS, salvaguardando a segurança e bem-estar de todos.

Com sinceros cumprimentos,
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Os carros do Luís de Matos

Apenas num país de "gente esperta" é que estas "magias" do estacionamento são possíveis.