Rima, mas não tem graça...



Lisboa - Av. Almirante Reis - 5 Nov 09
Polícia Municipal ajuda o Pai Natal
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NOTA::duas outras fotos, tiradas 4 dias depois no mesmo local, podem ser vistas [aqui].

E se... (por uma cidade acessível a todos)

Prezado leitor,

Preâmbulo:

Imagine que habita numa cidade confusa, um lugar onde o espaço público em geral e os passeios em particular são desprezados, negligenciados, maltratados. Imagine uma cidade em que a vivência dos espaços públicos tende a subalternizar-se à utilização dos espaços públicos como o locus depositário do que não cabe noutros sítios - seja um painel publicitário ou político, automóveis ou pilaretes, sinalização vertical, caixas de electricidade, iluminação pública, paragens de autocarros, etc. Este é um problema de muitas cidades, talvez todas em Portugal, talvez...

Imagine esta cidade onde os espaços públicos, no lugar de se assumirem como espaços privilegiados para as pessoas, definem-se como espaços para as coisas das pessoas. E lá vêm os elementos estranhos mais toda a panóplia de mobiliário urbano desarrumado que enche o espaço público e o torna inóspito e agreste, tão difícil de viver, cruzar e desfrutar como os mais ventosos morros das terras altas.

De forma displicente, o espaço público nesta cidade mais não é que o espaço-público-das-coisas-das-pessoas.

Imagine agora uma cidade em que o espaço público em geral e os passeios em particular são lugares sacrossantos, invioláveis, protegidos, cuidados. Isto é, uma cidade pensada para as pessoas e não para os adereços das pessoas. Em que o espaço público é pensado como o espaço-público-das-pessoas, em detrimento do espaço-público-das-coisas-das-pessoas. Esta é uma cidade que militantemente protege as pessoas e a sua vivência dos espaços públicos.

Esta(s) cidade(s) podia(m) ser Lisboa. Este desafio, o de pensar que cidade se pretende para o futuro, foi lançado pela Câmara Municipal de Lisboa à sociedade civil. O Passeio Livre foi convidado a participar numa sessão de auscultação para o Plano de Acessibilidade Pedonal de Lisboa, que visa diagnosticar o actual estado da cidade no que respeita à acessibilidade pedonal, procurando lançar a discussão de que cidade se pretende para 2017, bem como a forma de lá chegar.

A marcha começou já portanto, do lugar-estranho da acessibilidade pedonal de Lisboa em 2009, para uma cidade acessível em 2017.

Um agradecimento à equipa do Núcleo de Acessibilidade do Departamento de Acção Social pela organização da sessão de auscultação, pelo convite endereçado ao Passeio Livre e pela oportunidade que nos foi dada de contribuir para tornar Lisboa mais acessível - obrigado Pedro Homem de Gouveia, Pedro Alves Nave, Jorge Falcato Simões e João Mendes Marques.


Breve resumo da sessão:


A sessão de auscultação para o Plano Municipal de Acessibilidade Pedonal de Lisboa teve lugar no dia 18 de Setembro. A elaboração deste plano foi decidida em Julho de 2009 e pretende, antes de mais, realizar um diagnóstico da situação de acessibilidade da cidade (assumido como extraordinariamente negativo). Pretende-se que nos próximos 12 anos se possa tornar Lisboa numa cidade o mais acessível possível.

A sessão contou com a participação de:
  • organizações da sociedade civil (directa ou indirectamente ligadas ao tema da acessibilidade, e.g., ACAPO - Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, CNAD - Cooperativa Nacional de Apoio a Deficientes);
  • serviços da CML;
  • outras entidades e cidadãos (onde se encaixava o Passeio Livre).

Procurou-se:
  • identificar problemas e definir formas de os corrigir;
  • prevenir o aparecimento de novas barreiras;
  • tomar medidas para um envolvimento da comunidade na promoção e defesa da acessibilidade inclusiva;

Estes pontos foram discutidos relativamente à totalidade do espaço público, incluindo ruas, praças, jardins, passeios, etc., na perspectiva da circulação em condições de conforto, segurança e autonomia.

O relatório total da sessão pode ser consultado aqui.

O Passeio Livre foi verdadeiramente bem recebido. Não só houve curiosidade genuína sobre a iniciativa em geral como, mais ainda, sucederam-se os pedidos de autocolantes, quer por cidadãos individuais, quer por organizações.

Para desenjoar e inspirar

Inspirados por este engraçado relato com um fim feliz (ler os comentários até ao fim) gostaríamos de pedir aos leitores o envio de contribuições positivas - fotografias, "estórias", exemplos de problemas resolvidos. Obrigado!

PS Para quem nos tem enviado contribuições: como devem calcular temos recebido centenas de e-mails nos últimos meses. Com paciência e tempo tentaremos publicar quase todas as contribuições!

Sou da Câmara, paro onde quero?

---------- Forwarded message ----------
From: Cxx Mxxx
Subject: Sou da Câmara, paro onde quero?
To: Peão Exaltado
Cc: municipe@cm-lisboa.pt, gab.presidente@cm-lisboa.pt


Bom dia,
 
é esta a noção de mobilidade para os peões que a Câmara passa? Já não basta a PSP e a PM fazerem isto impunemente (e ainda ameçam prender por se reclamar), e agora também temos de levar com estes?? Para quando o fim deste circo de estacionamento selvagem??
 
CM
 

 

A Rua de uma Escola em Lisboa

Estacionamento abusivo no passeio junto de um estabelecimento de ensino (municipal) na Rua das Escolas Gerais (entre o nº 61 e 65). Este passeio, que dá acesso à entrada principal da escola, e junto de uma paragem de eléctricos, é usado diariamente para estacionar viaturas. E como se pode ver pelas imagens, os passeios ficam MESMO totalmente ocupados, impedindo a circulação dos peões. Numa das imagens podemos ver um adulto com crianças que, ao saírem da escola, foram obrigados a circular na faixa de rodagem pois uma viatura ocupava a totalidade do passeio. Para resolver este problema, já foi solicitado à CML a instalação de pilaretes - que em 2008 o prometeu fazer mas até hoje não agiu.


Nota: a poucos metros deste local foi construído o parque de estacionamento público das Portas do Sol (custou 4 milhões de euros e é gerido pela EMEL) bem conhecido por dar prejuízo e por ter mais viaturas estacionadas nos passeios na sua envolvência do que no seu interior.
 

 
 
 FJ

Sintra (Portugal), Carcassonne (França) e Marvão (Portugal)

Centro histórico de Sintra ("Vila Velha"), Património da Humanidade, Verão de 2009.

A 1ª imagem mostra parte de um grande parque de estacionamento (gratuito) que existe mesmo junto do centro histórico. Está quase vazio.

A 2ª imagem mostra o centro da Vila Velha. Cheio de carros. De manhã e de tarde, é frequente encontrar-se aqui um ou dois agentes da polícia, para fiscalizar o estacionamento. Apesar de os agentes fecharem os olhos a quase tudo (mesmo aqui há carros a bloquear a passagem de peões, perante a indiferença da polícia), a sua presença contribui para que os automobilistas normalmente não arrisquem (quando os agentes se vão embora, é o pandemónio...).





Mas logo nas ruas ao lado começa o triste espectáculo dos passeios ocupados por carros, tendo os residentes e os turistas que circular no asfalto, no meio do trânsito (constante) de carros (imagens 3, 4 e 5). Uma placa bem visível (6ª imagem) ainda tenta disuadir os automobilistas de ir de carro para a Quinta da Regaleira: são só 5 minutos a pé, diz a placa. A verdade é que nem 5 minutos são, e o percurso é acessível a qualquer ser humano com mais de 3 anos e menos de 80. Mas os turistas portugueses insistem em levar os carros, que depois estacionam nos passeios (imagens 7 e 8). Entre outros turistas muito pouco satisfeitos com isto, vi uma espanhola com um carrinho de bebé, irritadíssima por ter de andar com o bebé no asfalto. São as férias dela. Voltará a Portugal? Duvido muito.









  
  

Por aqui existe um excelente serviço de "shuttles" que circulam durante todo o dia, com grande regularidade (10 a 15 minutos), com paragens na Vila Velha, na Relageira, no Castelo, na Pena, etc. Os estrangeiros utilizam-nos, os portugueses não. A Vila Velha de Sintra podia bem ser vedada ao trânsito (excepção para residentes). Assim não é fácil andar aqui a pé, até porque os passeios, mesmo quando não têm carros em cima, são incrivelmente estreitos. Está muito longe de ser agradável ser turista em Sintra.

Cidadela de Carcassonne, Património da Humanidade, França.

Estamos perante uma área maior do que a do centro histórico de Sintra. Mas os turistas não entram aqui de carro. Os carros ficam estacionados fora das muralhas, em descampados que servem de parques de estacionamento. O estacionamento implica o pagamento de uma taxa. Os turistas que têm alojamento reservado dentro da cidadela deixam o carro fora das muralhas (num sector de estacionamento específico) e são gratuitamente transportados (com as bagagens) em pequenas carrinhas até ao hotel. Dentro da cidadela, todos os turistas andam a pé e, claro, não há carros em cima dos passeios (imagens 9,10 e 11). E não é por isso que Carcassonne deixa de ter visitantes: pelo contrário, é um dos principais destinos turísticos de toda a França...







Marvão

(últimas duas imagens), pequena vila amuralhada do Alentejo, candidata a Património da Humanidade, é muitíssimo mais pequena do que Carcassonne, e por isso mais se justificaria uma solução do tipo da que existe nessa cidade francesa. Fora das muralhas, já existem parques de estacionamento com lugares de sobra para toda a gente. Mas os carros podem entrar livremente nas muralhas e, como estamos em Portugal, os abusos são frequentes. Durante o Verão, e no resto do ano aos fins-de-semana e feriados, é banal encontrar-se carros nos locais de passagem dos peões. Em tempos existiu um projecto para vedar o trânsito automóvel no interior da vila (com excepção para residentes), mas a ideia mereceu tal oposição dos comerciantes locais que acabou por ser metido na gaveta...   



A malta do «Não há lugares!...»


 Lisboa - Ruas António Ferreira, Frei Tomé de Jesus e Alfredo Cortês
Se alguém perguntar a estes condutores que habitualmente estacionam em cima dos passeios porque é que o fazem, dirão que «não há lugares». Se lhes mostrarem, mesmo debaixo do nariz, os lugares vagos, dirão que «são muito caros». O que dirão, então, se lhes recordarem que é domingo (dia em que foram tiradas estas e muitas outras fotos semelhantes), e que o estacionamento, além de abundante, é gratuito?!

O exemplo do "ensino"


«Se não havia dúvidas de que parte da falta de civismo vem da educação em casa, penso que também já não haverá em relação ao "ensino" transmitidos aos novos condutores pelos "profissionais" deste país.
O estacionamento selvagem é baseado numa hierarquia onde reina o caos e o desrespeito por tudo e todos. O Zé estaciona onde quer, porque:
1. não recebe educação em casa e é egocêntrico
2. aprende que é normal estacionar no passeio
3. porque a polícia não o autua

4. porque as autarquias não deixam a polícia autuar. uma multa é um voto a menos e primero está o poder e em segundo plano os deveres cívicos.

Isto faz parte do cenário habitual na R. Quinta das Palmeiras (uma zona de passagem de cadeiras de rodas) e Rua Carlos Mardel (estacionamento "privativo" para quem anda na CP), e que apesar de constantes emails, os olhos são continuamente fechados.

QUEREM CORAGEM E DECISÃO POLÍTICA? Façam um estacionamento subterrâneo com tarifas baratas junto à estação CP Oeiras no Jardim Gago Coutinho (onde há neste momento um estacionamento à superficie) ou do lado mar da estação (R. Fundição de Oeiras) onde também já existe um à superfície. De qualquer forma, POR FAVOR, acabem é com este circo.»
Contribuição de um leitor