Outra vez a famosa "falta de Opção"


APANHADOS EM FLAGRANTE* (3)

Gare do Oriente, Lisboa, 2/7/2009. O flagrante não podia ser maior: o dono deste jipe resolveu pô-lo em cima do passeio, a uns 5 metros da entrada de um enorme parque de estacionamento (cujo letreiro diz "livre") e a cerca de 20 metros da entrada de outro gigantesco parque de estacionamento (também "livre").

Nenhum destes parques, com milhares de lugares, alguma vez encheu: tem sempre lugares. Em contrapartida, esta rua está todos os dias cheia de carros ilegalmente estacionados, no passeio, nas passadeiras e na faixa de rodagem.

Estive aqui 10 minutos à espera de uma pessoa e nesses 10 minutos outro jipe e um automóvel também estacionaram no passeio (todo: nem 10 cm deixaram para as pessoas passarem...). Não devem ter reparado no parque de estacionamento ao lado...


[*Série de fotografias tiradas a carros acabados de estacionar no passeio ou na passadeira e com alternativa de estacionamento a poucos metros. Para acabar de vez com o mito de que o estacionamento nos passeios se deve à falta de alternativa de estacionamento. É, em primeiro lugar, uma questão de MENTALIDADE]

Opinião

O Automóvel Club de Portugal divulgou um comunicado em que, entre outras coisas - sempre a favor da circulação automóvel em prejuizo de alternativas de transporte público ou de mobilidade suave - declara-se contra a proposta de eléctricos rápidos por ser esse "um modelo utilizado internacionalmente para cidades pobres, como Bogotá".

Publicamos aqui uma reacção a esse comunicado do ACP, assinada pelo seu autor.


O novo-riquismo é uma doença de carácter que se caracteriza pelo medo-pânico de parecer pobre. Conduz a comportamentos frequentemente ridículos de ostentação desenfreada, e impõe a quem sofre dessa doença um estado de sobressalto permanente. Tem entre pessoas que enriqueceram derrepente as suas vítimas preferenciais, mas, mais raramente, atinge pessoas já nascidas ricas e, ainda mais raramente, atinge instituições.

Como não há nada que faça supôr que as ideias adoptadas por países pobres são necessariamente más (ou boas), julgo que o ACP foi tomado por um surto agudo de novo-riquismo quando esgrimiu como argumento contra a proposta de criação de linhas de electricos rápidos em Lisboa o facto de ser "um modelo utilizado internacionalmente para cidades pobres, como Bogotá".

Sem chegar a entrar no mérito dos eléctricos rápidos, não posso deixar de apontar o carácter tacanho da argumentação do ACP, que, de resto, é perfeitamente condizente com a cultura de fetichismo automobilístico que impera em Portugal. É o carro como símbolo de poder, instrumento de ostentação de uma riqueza que, às vezes, falta para as prestações da casa. "Eléctricos, bicicletas, autocarros, combóios, bah, isso é coisa de pobre", é o que, tirado o verniz, fica do comunicado do ACP.

Mário Negreiros

PS: Por acaso, não me consta que Lisboa seja uma cidade rica.

Há assuntos que não podem ficar esquecidos




«É uma tristeza quando são os próprios poderes públicos que permitem a ocupação de passeios pelos carros.»
Anónimo 14 de Julho de 2009 11:23
«…a existência deste sinal por si só não transforma esta situação numa situação "legal"...»
Anónimo 14 de Julho de 2009 13:19
«Institucionalizar a ilegalidade não será digno de uma sociedade que procura a plena integração europeia, para junto de países onde este e outros problemas já deixaram de existir, há muitos anos.»
LC 14 de Julho de 2009 22:05
«Se estes painéis se destinam mesmo a permitir o estacionamento em cima do passeio, a sua legalidade é no mínimo muito duvidosa. Eles foram criados por um simples decreto regulamentar (= com valor inferior ao de uma lei ou decreto-lei), e portanto não podem contrariar o Código da Estrada. Como disse LC, o Código da Estrada não prevê uma única excepção à proibição da paragem ou estacionamento em cima do passeio. Portanto, segundo o Código da Estrada, parar ou estacionar no passeio é absolutamente proibido, seja em que circunstância for.Parece-me que este argumento é válido. Quando o Código da Estrada admite excepções às regras que prevê, di-lo expressamente. Por exemplo, no art. 27 estabelecem-se os limites de velocidade que todos conhecemos. Mas no art. 28, nº 1, alínea b), admite-se que possam ser fixados limites superiores aos legais (por ex., mais de 120 km/h) “quando a intensidade do trânsito ou as características das vias o aconselhem”.»
JL 15 de Julho de 2009 9:37
«1.º O estacionamento em cima do passeio é proibido por lei (neste caso o Código da Estrada). Logo a sua permissão administrativa é ilegal;2.º Mesmo que o Código da Estrada o permitisse (hipoteticamente), não legitimava o acto, pois a lei não se basta com a vontade do legislador, tem de estar conforme com o «pacto social» e eu, quando prescindi da minha soberania em favor do Estado, não o foi para fazer aberrações destas, logo compete ao cidadão insurgir-se contra os abusos da Administração.»
JC 15 de Julho de 2009 22:28
«Esta discussão é demasiado importante e interessante para se perder na caixa de comentários do blog»
PG 16 de Julho de 2009 0:18

E os malandros dos peões, que andam na estrada?!?


Este argumento é utilizado pelos condutores que se sentem incomodados pelo "abuso" dos peões, que invadem as suas pistas.

O que ninguém se lembra é que, além das cidades serem cada vez menos pensadas para os peões, o pouco espaço que estes têm é invadido por automóveis, obrigando-os a ir para a estrada onde o podem "caminhar livremente", sem ter que contornar obstáculos e barreiras - automóveis a cada 5 metros, sinais de trânsito, caixas da EDP, suportes de publicidade, etc, etc.

Falta de opção, outra vez?







APANHADOS EM FLAGRANTE* (2)



Rua Quinta das Palmeiras (junto ao C.C. Palmeiras), Oeiras, 24/6/2009.
Acabou de chegar, pôs o carro todo no passeio, ligou os 4 piscas (na 1ª fotografia são visíveis as luzes) e foi à sua vidinha. Para quem não sabe, os 4 piscas significam: "Isto agora é meu! Enquanto os piscas estiverem ligados, ninguém anda mais neste passeio!".
A 2ª fotografia mostra 4 lugares de estacionamento (gratuitos) vazios. Distância: 20 metros. Nesse parque (repito, gratuito), havia mais 10 lugares vagos. Falta de alternativa? Ou falta de respeito?...
[*Série de fotografias tiradas a carros acabados de estacionar no passeio ou na passadeira e com alternativa de estacionamento a poucos metros. Para acabar de vez com o mito de que o estacionamento nos passeios se deve à falta de alternativa de estacionamento. É, em primeiro lugar, uma questão de MENTALIDADE]

Emergência!... mas cuidado para não estragar a pintura do popó.


Viva,
Estou a escrever para vos oferecer um exemplo didáctico que ilustra cabalmente uma das razões para não se estacionar em cima do passeio. Eu sei, como se o bom censo não fosse o suficiente para não se estacionar em cima do passeio!Enfim...
Neste prédio houve hoje uma inundação (curiosamente também ela fruto da falta de civismo). Os bombeiros foram chamados para cortarem o abastecimento de água ao prédio, foi necessário proceder assim dado que o problema era na escada. Infelizmente não puderam trabalhar convenientemente dado que estava um automóvel estacionado em cima do passeio com a roda da frente a uns dez centímetros da válvula de segurança do prédio. Ora, quem conhece a ferramenta usada para fechar estas válvulas sabe que a haste tem uns 60 ou 70 centímetros logo não podia trabalhar naquele lugar com o automóvel a impedir o fácil acesso.
Em resultado do atraso em fechar a válvula os estragos na escada poderiam ter sido muito menores dado que a maior parte do tempo usado para resolver o problema foi usado em deliberações sobre a melhor forma de actuar sem danificar o automóvel!
Há nesta história vários problemas a destacar:
* Em primeiro lugar o extremo cuidado que os bombeiros tiveram em não danificar o carro. Pediram mesmo a alguns vizinhos para emprestarem toalhas para proteger o automóvel. A avaliar pelo que vemos em filmes estrangeiros a primeira coisa que um bombeiro deveria ter feito seria arredar o automóvel,não muito preocupados com os estragos que pudessem fazer. Estando nós no país em que estamos não me admirava nada que os bombeiros fossem responsáveis pelos estragos que fizessem! Seria interessante os leitores do blog clarificarem este ponto.
* Quando finalmente os bombeiros perceberam que não conseguiam trabalhar desta forma (depois de terem riscado o carro algumas vezes!), decidiram finalmente arredar o automóvel. Só nesta altura é que a dona do veiculo gritou de um segundo andar e removeu o automóvel. Notar que não foi chamada a policia, e não foram pedidas responsabilidades. Notar também a apatia da proprietária do veiculo. Terá sido por má consciência que não foi retirar o automóvel?
* Já pedi à CML para colocar pilaretes pelo menos à frente das portas dos prédios, até agora sem sucesso. Também já sugeri à CML a reordenação do tráfego nesta zona por forma a aumentar o número de lugares de estacionamento disponíveis, também sem resultados.
Toda esta história se passou na Rua Leite Vasconcelos em Lisboa.
É claro que podem utilizar o conteúdo deste mail da forma que vos for mais conveniente.
Obrigado,

Olhos estrangeiros sobre Lisboa











Hello,
vivendo aqui pouco tempo and shocked.

londres - cidade sem automóveis

«Olá,
Segue abaixo o meu contributo para a nova rubrica. Trata-se de um artigo sobre um novo empreendimento proposto para o centro de Londres.
Nesta cidade, ao contrário do que cá se passa, existe um número MÁXIMO de lugares que pode ser proposto em cada projecto. Aliás, os projectos são benefíciados quando são propostos poucos lugares, de preferência, bem longe do máximo permitido, existindo projectos que apenas prevêm lugares para cargas e descargas, deficientes e eventualmente veículos de utilização partilhada (car sharing).
O objectivo é desincentivar que as pessoas tenham carro. E diga-se, numa cidade como Londres com excelentes trasportes público, a qualquer hora de qualquer dia da semana, ninguém precisa de carro! Experiência própria.
O projecto em questão, além de outras modernices como uma central de biomassa propõe, pasme-se, 25 lugares de estacionamento para automóveis, 22 para motociclos e 586 para bicletas. Tudo para servir 376 apartamentos e algum espaço comercial, numa torre de 149m.
Segue abaixo extracto do artigo, e link.
"Located on a brownfield site adjacent to the Vauxhall transport interchange, the proposed 149m tall building supports the planned regeneration of the Vauxhall, Battersea and surrounding areas and is within a zone allocated for a cluster of new tall buildings."
"In an area dominated by transport systems, the scheme includes a landcaping proposal to connect Bondway to Vauxhall Park and improve the pedestrian experience through an increase in public seating and vegetation.
Biomass boilers provide 25 per cent renewable energy consumption, sustainable urban drainage system protects the local infrastructure; 25 car parking spaces, 22 motor cycle spaces and 568 bicycle spaces will be provided."
http://www.architectsjournal.co.uk/first-look-the-octave-makes-149m-tower-for-vauxhall/5203521.article
O número de apartamentos é citado num outro artigo, abaixo.
http://www.bdonline.co.uk/story.asp?sectioncode=426&storycode=3142870 »
Contribuição de um leitor, 19Jun09